Num mundo sem fronteiras onde a imaginação corre solta e sem preparo, vivia um pequeno menino de longas botas marrons.
Andava pelas ruas para cima e para baixo, rarátumtum, faziam suas botas e subia a ladeira. Parararátimtim cantarolava o menino. E assim passava o dia rarátumtum, parararátimtim.
Um dia passando por uma árvore ouviu um piú-snif. Mas que som mais estranho, pensou. Ele parou e ouviu... piú-snif.
De onde vem esse som, se perguntou o menino. Ouviu o vento, vuuuuuuvuuú, que nada mais além de seu próprio som trazia. Ouviu o sol, frissz-frissz, aquecendo as coisas. Olhou a água que se rindo corria sem fazer barulho.
Piú-snif.
Mas de onde vinha esse som?
A água assoviou e apontou. Eis que o menino vê no topo da árvore uma casinha. E lá estava o piú-snif, que vinha logo após um sentido suspiro de um enorme pássaro triste.
- O que faz ai? – gritou o menino.
Silêncio foi a resposta.
- O que faz ai? – tentou novamente o menino.
Desta vez o piú-snif foi ainda mais longo e sentido.
As botas rangeram e um arrepio subiu pela ponta dos dedos e seguiu até a ponta do nariz. Foi então que o menino decidiu subir.
Galho por galho a bota apoiou, folha por folha seu nariz roçou. Estava tão concentrado na escalada que se não fosse o piu, dessa vez muito curto e alegre, da casinha ele quase passou.
- O que faz aqui tão triste, passarinho?
- Meu pé está preso.
Pelo passarinho o menino espiou e lá estava o enorme pé entalado na casinha que era muito menor que o pobre bichinho.
- Não fui eu que insisti! – já foi o pássaro se justificando – foi a casinha que encolheu.
O menino olhou bem sério e carrancudo a casa, mas nem precisou da resposta e muito menos fazer a pergunta, pois a casa o olhou com tal espanto e inocência que o menino logo entendeu.
- O que um pássaro tão grande faz tentando entrar numa casa tão pequena?
- Mas também tão bonita. Não podia um gentil pássaro como eu ter tal casinha como refúgio? Tão bonita! Bem melhor que meu velho ninho.
- Mas vendo-a tão perto, porque não desistiu da investida?
Um suspiro e um piú-snif foi a resposta.
O menino se condoeu e pensou na resposta. Fez cosquinhas na casinha e ela se contorceu,... contorceu e começou a rir. Riu tanto que a risada virou gargalhada, e o pássaro conseguiu retirar seu pezinho. E que pezinho! Era quase maior que o passarinho.
Piupiupiú ♫♪♪♫♪♫♫♪ cantou o pobre bichinho.
Parararátimtim ♪♫♪ cantou o menino.
Desceu o menino, voou para seu ombro o passarinho e lá foram os três.
Rarátumtumm, Piupiupiú ♫♪♪♫♪♫♫♪, parararátimtim ♪♫♪ para cima e para baixo, de uma rua a outra, sempre seguindo a sinfonia.
Rarátumtumm, Piupiupiú ♫♪♪♫♪♫♫♪, parararátimtim ♪♫♪.
E a casinha, agora bem mais aliviada, passava os dias seguindo ao longe o menino, aquele enorme pássaro de pés enormes e aquela bota... Ah! Que linda sinfonia a deles. Ah! Que linda bota. Que encanto de bota! Tão linda! Suspirava a apaixonada casinha.
À espera toda arrumadinha e cheirosa pela próxima visita.
Màhrcia Carraro 23/01/08
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