sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

texto Magnífico de Martha Medeiros

(Texto publicado na Revista do Jornal O Globo)

'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.

Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias.

Cinco dias!

Tempo para uma massagem.

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.

Para engravidar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem..

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.

Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prata, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'


Martha Medeiros - Jornalista e escritora

quinta-feira, 15 de julho de 2010

DOCE CASINHA

Num mundo sem fronteiras onde a imaginação corre solta e sem preparo, vivia um pequeno menino de longas botas marrons.
Andava pelas ruas para cima e para baixo, rarátumtum, faziam suas botas e subia a ladeira. Parararátimtim cantarolava o menino. E assim passava o dia rarátumtum, parararátimtim.
Um dia passando por uma árvore ouviu um piú-snif. Mas que som mais estranho, pensou. Ele parou e ouviu... piú-snif.
De onde vem esse som, se perguntou o menino. Ouviu o vento, vuuuuuuvuuú, que nada mais além de seu próprio som trazia. Ouviu o sol, frissz-frissz, aquecendo as coisas. Olhou a água que se rindo corria sem fazer barulho.
Piú-snif.
Mas de onde vinha esse som?
A água assoviou e apontou. Eis que o menino vê no topo da árvore uma casinha. E lá estava o piú-snif, que vinha logo após um sentido suspiro de um enorme pássaro triste.
- O que faz ai? – gritou o menino.
Silêncio foi a resposta.
- O que faz ai? – tentou novamente o menino.
Desta vez o piú-snif foi ainda mais longo e sentido.
As botas rangeram e um arrepio subiu pela ponta dos dedos e seguiu até a ponta do nariz. Foi então que o menino decidiu subir.
Galho por galho a bota apoiou, folha por folha seu nariz roçou. Estava tão concentrado na escalada que se não fosse o piu, dessa vez muito curto e alegre, da casinha ele quase passou.
- O que faz aqui tão triste, passarinho?
- Meu pé está preso.
Pelo passarinho o menino espiou e lá estava o enorme pé entalado na casinha que era muito menor que o pobre bichinho.
- Não fui eu que insisti! – já foi o pássaro se justificando – foi a casinha que encolheu.
O menino olhou bem sério e carrancudo a casa, mas nem precisou da resposta e muito menos fazer a pergunta, pois a casa o olhou com tal espanto e inocência que o menino logo entendeu.
- O que um pássaro tão grande faz tentando entrar numa casa tão pequena?
- Mas também tão bonita. Não podia um gentil pássaro como eu ter tal casinha como refúgio? Tão bonita! Bem melhor que meu velho ninho.
- Mas vendo-a tão perto, porque não desistiu da investida?
Um suspiro e um piú-snif foi a resposta.
O menino se condoeu e pensou na resposta. Fez cosquinhas na casinha e ela se contorceu,... contorceu e começou a rir. Riu tanto que a risada virou gargalhada, e o pássaro conseguiu retirar seu pezinho. E que pezinho! Era quase maior que o passarinho.
Piupiupiú ♫♪♪♫♪♫♫♪ cantou o pobre bichinho.
Parararátimtim ♪♫♪ cantou o menino.
Desceu o menino, voou para seu ombro o passarinho e lá foram os três.
Rarátumtumm, Piupiupiú ♫♪♪♫♪♫♫♪, parararátimtim ♪♫♪ para cima e para baixo, de uma rua a outra, sempre seguindo a sinfonia.
Rarátumtumm, Piupiupiú ♫♪♪♫♪♫♫♪, parararátimtim ♪♫♪.
E a casinha, agora bem mais aliviada, passava os dias seguindo ao longe o menino, aquele enorme pássaro de pés enormes e aquela bota... Ah! Que linda sinfonia a deles. Ah! Que linda bota. Que encanto de bota! Tão linda! Suspirava a apaixonada casinha.
À espera toda arrumadinha e cheirosa pela próxima visita.


Màhrcia Carraro 23/01/08

To cansada de solidão.

To cansada de solidão.

To cansada de ser sozinha.

Não há solidão maior no mundo,

Do que a ser só e sozinha.

Essa era a cantiga que a assombrava todas as noites, ela pensava na jovem e robusta moça que havia sido. Nos muitos namorados e pretendentes, deliciava-se ao lembrar dos rompantes de menina moça quando os deixava fazer coisas com ela que para e época eram um escândalo. Por isso nunca se casou, era tão fascinada naquele sentir sem fim, nas mãos que lhe acariciavam, nos beijos em lugares proibidos, dedos que a violavam ainda antes de ela ser realmente deflorada que esqueceu-se do principal, para a época. Esqueceu-se de se fazer pudica, de inventar melindres e não me toques, esqueceu-se de fazer-se fascinante aos olhos daqueles que deveriam ver e nunca tocar, como o mais belo rubi, era isso o q a mãe dizia. Mulheres são como rubis e diamantes, ela preferia se comparar ao rubi, pela cor. Ah! O vermelho, que cor pecaminosa. A parte em que deveria ser admirada e nunca tocada, sempre passou desapercebida pelo seus ouvidos.

Como ficar longe de todas aquelas bocas que a queriam que a possuíam com tanto ardor. Que a lambiam com tanta e alucinante inexperiência. Pensou várias vezes em virar puta, pra viver nessa orgia todos os minutos de sua vida, mas pensar em se sustentar disso a deixava repugnada.

Ela escolhia quem e onde tocar. Dizia o que queria que eles fizessem e se consumia de prazer. Dela eles só tinham o que ela deixava. Ela sempre foi pudica, se deixava tocar, mas nunca tocava de volta. Achava isso sim coisa pecaminosa. Tocar, só no marido! Ela sim sabia quantas e quantas vezes teve que fechar sua boca com muita força pra não abocanhar tudo aquilo que lhe mostravam. Ah! Deus, ela pensava, nisso tenho que me manter pura até o casamento. Essas coisas só meu marido irá ter.

Para a sua infelicidade, os pais a noivaram com um homem com bem mais de 10 anos que a sua idade. Ele era velho, tacanho, usava óculos horríveis e ela por mais que tentasse não conseguia sentir dele aquele cheiro forte que o corpo de jovens homens exalam, vinha dele sempre o mesmo cheiro, sabonetes e alfazemas.

O noivo quis a todo o custo desposá-la o mais breve possível, a família já ouvindo alguns rumores aceitou de bom grado. Ela chorou, ficou vermelha, azul, roxa e por fim suspirou. Era esse o costume da época, e ela sabia que já havia burlado tantos outros que se sentiu na obrigação de manter este.

O noivo a convidou para viajar a velha fazenda de seus pais para conhecê-los, como o casamento seria em breve a mãe não pode acompanhá-la. E as irmãs menores, era melhor evitar, pois conhecendo a temperança da filha a mãe achou melhor não arriscar a reputação das meninas. Por sorte a mãe do noivo veio à cidade e faria o trajeto com eles até a velha fazenda, onde o pai do noivo, mais moribundo do que nunca, esperava ansioso pelas bodas do filho.

Chegando a fazenda a velha foi a seus afazeres que eram muitos, já que não se tinha criados. A doença do velho consumiu com todos, e agora consumia, uma a uma as vacas, as terras e tudo o mais que havia.

Foi numa noite que a afoita moça cometeu o terrível erro. Queria ela saber se após o casamento o cheiro e o toque daquele velho homem poderia melhorar, e então montou seu jogo.

Bom! Ele já é meu noivo, ela pensou. Em duas semanas será minha boda, que mal há de fazer provar do tacho antes que vire a esfriada geléia.

Chamou então, seu noivo ao quarto, com o pretexto de matar horroroso inseto que a perturbava no leito.

Com a voz sussurada pôs-se doce, com jeitinho fez dele joguete, mas o que ela não podia supor é que aquele velho homem fosse tão forte.

Ela comandou o jogo como pode, mas ele nem brincou com ela, fez dela o que bem quis. Por fim, em menos de 20 min, estava lá chorando e sangrando deflorada. Ele recolheu as calças e saiu porta a fora.

Ela toda melindrosa foi reclamar à sogra a desfeita, a vergonha e a dor irreparável de sua alma.

A sogra a atirou para fora da casa, se esta fosse moça casta não permitiria um homem no quarto, por mais noivo que fosse.

Ele então disse a mãe que sabia que histórias dela corriam pela cidade, mas quando foi escolhido para noivo de tamanha formosura nem questionará o que era ou não maledicência. Onde mais arranjaria formosa e rica noiva. A mãe aconselhou o filho, eles conversaram.

A ele abriu a porta e a maltrapilha, vestida agora em lágrimas, rolou porta adentro.

Pois bem, a visita durou bem mais que duas semanas. O noivo recusou-se a devolver a furada menina, e mais ainda a casar-se com tamanha vadia. Mas aproveitou-se todas as noites dela, como bem quis. Chegou a encomendar desonroso livro indiano, que mostrou a ele diversas formas de amar a tamanha vadia, e descobriu nela coisas que não tinha coragem de enfiar nem mesmo em uma china.

A menina não gostou de nada, pois no lugar de luxuria e prazer toda a noite lhe era feita grande dor e maus tratos. Não porque o membro do amante, se é que o velho pode ser chamado assim, fosse algo descomunal, mas sim porque mesmo com o muito tempo de uso ele nunca aprendeu a usar direito. E quando ela tentava mostrar qualquer tipo de afeição para melhorar aquela tortura diária, era surras e chicotadas o que ganhava.

A família só conseguiu encontrar tão maldita fazenda por mais de um mês depois. Encontram no estábulo, a bendita cadela que ainda conservava a beleza, mas estava tão suja por dentro e por fora que nem ela e nem ninguém conseguia olhar nos olhos.

A mãe sequer conseguiu abraçá-la, as irmãs na casa das tias se hospedaram para não estar lá para ver horrenda figura.

Os pais re-vindicaram o casamento, mas diante de tamanha dor da filha, que por vezes beirava a loucura, desistiram do fato.

O triste foi o bucho! Que cresceu e cresceu. Quando explodiu veio ao mundo uma nada angélica menina, que chorava dia e noite pra desespero de todos na casa. O médico nada fazia que acalmasse. As babás, empregadas de longa data, as amas de leite e todos os que pudessem ser de valia, nada conseguiam e a criatura piorava dia, piorava noite.

A mãe e a avó muitas vezes cogitaram a hipótese de ter um acidente no banho da criança, mas o medo de Deus era sempre maior do que as possibilidades do acaso. Por fim a criança cresceu e tornou-se apaziguável menina.

Curiosa de mais pra infelicidade da mãe. Quem é meu pai? Porque não vou a escola como as outras meninas? Porque não sou igual a você? Porque meus olhos são tão escuros, e minha pele não tão alva? Porque tenho que usar isso para ler? Porque minhas primas quando me visitam ficam rindo de mim? Porque não nos cumprimentam na rua?

A mãe tão intempestiva outrora, fingia-se de forte, lutava e renegava o passado. A culpa pela mocidade a dominava todo instante. As irmãs bem casadas eram uma lembrança triste e constante de tudo o que a sua vida não era.

Com o tempo a menina se tornou moça e na crisma, ato que custou muito aos cofres dos avós, ela conheceu seu pai. As primas o mostraram. Era um homem elegante, bem trajado, com óculos grossos como os dela, tinha ar de avô. Andava ao lado de uma quase sumida criatura que com certeza era bem mais jovem que ele, tinha a seu lado dois garotos de bochechas rosadas e pele queimada de sol, tinham, pela aparência, a mesma idade que ela. A garota se sentiu tão bem ao vê-lo que num ímpeto pegou a mão dele, sorriu e disse:

- É um grande prazer meu pai.

O mundo silenciou-se. Todos os homens, mulheres e crianças calaram-se de repente.

O homem, olhou-a incrédulo

- Por acaso tenho filhos com vadias?

Empurrou-a longe e saiu levando a família.

As primas caíram na risada, e muitos outros do povo acompanharam. O padre tentou segurar a garota que soluçava, mas ela correu em disparada.

Anos, mais, se passaram, e ela resolveu trabalhar, não queria mais depender dos avos e ser chacota das estudadas primas. Foi secretaria, balconista. E para o horror da família ninguém parecia se importar de quem ela era filha. A mãe começou a estufar o peito quando andava nas ruas e elogiavam a prestativa filha.

- Olha! Ela ajudou-me no corte do vestido, o que seria de mim sem as dicas da tal menina.

O mundo mudou e descobriu-se que tinham muito mais filhos sem pais, do que pais para contar com eles.

Ela conheceu um rapaz de parca reputação e casou-se, tudo direitinho, véu, grinalda e noite de núpcias como manda o figurino de boas moças.

E a mãe começou a suspirar pelos cantos, enfim a juventude não fora tão horrível assim. Teria ela feito tudo de novo?

Freqüentou bailes e quermesses, fez novos “amigos”, alguns casados e experientes, outros tão meninos e fáceis de jogar. Os pais agora muito velhos não tinham como saber o que ela andava fazendo, as irmãs estavam muito ocupadas, com os filhos, netos, bordados e afins. Ela achou melhor trabalhar e ganhar a vida em outra freguesia. Mudou-se para a capital e descobriu que lá os prazeres eram permitidos até durante o dia. Viu mãos na sacristia, no meio da missa, no portão das casas, tudo bem que eram meninas e não mulheres maduras como ela, mas tudo era tão bom, tão gostoso, com tanto encanto.

Conheceu um velho capitão reformado, que adorava o uniforme, fazia tudo com ele e ela se divertia, a brincadeira era tanta e tão gostosa que ficou feliz em mostrar pra ele os buracos feitos com dor, mas que agora só davam prazer para ela e para ele.

Casou-se. E para vergonha das famílias de véu e grinalda, tudo branquinho. A filha não quis ir a cerimônia, imagina o vexame.

O casamento foi o mais gostoso ato de amor e sexo que ela poderia ter tido, mas infelizmente durou tão pouco.

Numa noite, estava ele se divertindo com dois buracos, ora em um ora em outro. Imagine a cena dois velhos de 60 anos, bem acima do peso, cabelos e pelos brancos, no meio da sala, com grandes almofadas protegendo os joelhos. A cena já era de chorar, mas o que a fez foi o infarto do maluco, que morreu de uma única vez sem tirar o quepe. Foi enterrado com farda e farta guloseima bem escondida com as flores. O desespero da viúva era imenso.

Mais uma vez os risinhos, os dedos apontando, e ela ali sozinha. Desta vez nem pai nem mãe podiam ajudar, se pudessem o fariam com o falecido, do outro lado. A filha não pode vir, mas a convidou para morar em sua casa. As “amigas” invejavam a fortuna dela, que felicidade era ter um marido desses. Os filhos do morto nem a olhavam na cara, a achavam usurpadora dos bens da família e do nome da mãe, que por infelicidade do destino ficou igual ao dela com o casamento. O velho bem aposentado, deixou a viúva em bom estado financeiro, mas os bens que ele havia posto em seu nome ela achou na obrigação de devolver aos filhos deste. A culpa mais uma vez era sua mais sincera inimiga.

Voltou para sua cidadezinha, comprou uma casa, numa boa vizinhança, não tinha muitos velhos disponíveis e ativos por ali. E ela se acostumou a ser só, repetia o tempo todo o quanto era velha para ter saudades de velhas brincadeiras, mas ia ao ginecologista assiduamente, sempre com milhões e milhares de incomodações, corrimentos e coceiras de todos os tipos.

O fim do uso de todas aquelas muitas pomadas deu-se quando encontrou em uma revista feminina uma ducha vaginal. Comprou logo a maior de todas e essa surtia o efeito, claro que usava mais vezes por dia do que o recomendado, mas enfim estava sempre limpa!

Morreu só, recitando a cantiga, num bom e demorado banho de paninho e ducha. O enfarte também foi fulminante, mas dessa vez Deus teve piedade dela, a deixou guardar a ducha antes da terrível pontada no peito.

A única vergonha que teve na morte foi ter sido carregada nua pelos fortes e jovens bombeiros.

Màhrcia Carraro 22/01/09